Hoje acordei as 9:30 com uma determinação: ir a Marcha da Liberdade. Fui cuidando dos afazeres aqui de casa e procurando na internet informações sobre a Marcha e tentando contatar pessoas pra ir comigo. Não queria ir sozinha, confesso, estava com medo.

Nessa busca pelas pessoas me vi sozinha e me revoltei, como as pessoas só conseguem reclamar via internet de que nada está bom, que vivemos numa repressão, uma ditadura disfarçada de democracia? E na hora da ação cruzam os braços, armadas da primeira desculpa que vêem a sua frente, enganando a si mesmas a respeito da responsabilidade que cada um deve ter em relação a sociedade e tudo que ocorre nela.

Essa situação poderia ter me barrado, mas precisaria de mais pra isso. Porque não existem desculpas quando se quer lutar… com estudo ou sem estudo atrasado para uma prova ou TCC ou seja lá o que for, com gripe ou sem gripe, com “compromisso” ou sem, com frio ou com calor, com companhia ou sem, com risco ou não… mas com vontade de lutar, já que isso é o que move ao final das contas, pois não existem condições ideais para a luta. Existe somente a escolha, ou nos afetamos com o que acontece ao nosso redor e nos movemos ou nos anestesiamos em nosso mundinho individual e egoísta.

Parti pra Marcha. Como o medo era grande levei uma mochila que continha: uma garrafa de água, rg, bilhete único, lenço umedecido, kit primeiros socorros e uma sacola que tinha uma camiseta umedecida com vinagre. Não pensava no pior e nem esperava por ele, mas achei sensato me preparar pro que fosse. Indo pro MASP não parava de pensar em quantos movimentos estariam ali representados e o que eu queria dizer, sobre o que eu queria me expressar. Cheguei entre 14:30 e 14:45. Já tinha muita gente lá e não parava de chegar mais gente.

Então dei uma volta pelas pessoas ainda pensando no que queria dizer, então abri minha mochila e peguei um pequeno rolo de microporo que tinha no meu kit primeiro socorros e decidi ali o que eu diria: NADA. O meu silêncio seria o meu grito, o meu calar ecoaria aquilo que mais me incomodava, o fato de nos calarmos sempre e a cada dia pra tudo aquilo que nos oprime. Escrevi então no microporo e vedei a minha boca… “ONDE ESTÁ A SUA VOZ?”. Segui do início ao fim da Marcha de boca lacrada e um cartaz na mão: “Mais AMOR por favor!” e toda vez que cansava de ficar de braços erguidos buscava força no tantos outros numerosos cartazes erguidos em protesto e reerguia meu cartaz. Permaneci mais de 4 horas com a boca vedada, tirando só pra tomar água ou fazer comentários breves com a galera que eu tinha feito amizade mesmo não falando nada.

Nesse tempo todo meu ouvido se aguçou pra tudo que rolava ao redor e se percebia que todos ali, inclusive os policiais, tinham algo em comum, a humanidade. A humanidade presente em todos indivíduos porém roubada e cerceada pelo Poder, pelo Estado através da cultura do medo e da subserviência. E a percepção de todos presentes desse ponto em comum que tínhamos fez com que eu não precisasse utilizar meu kit de primeiros socorros e nem abrisse minha mochila pra utilizar a camiseta com vinagre embebido pra me proteger, nem eu nem ninguém ali precisou desse tipo de medida e não tenho palavras pra descrever o tamanho de minha felicidade por isso.

Ao final mais de 5.000 pessoas estiveram presentes e chegamos em festa à Praça da República. Arrepiei ao chegar lá, com o som do maracatu, as pessoas gritando LIBERDADE. As pessoas me fitavam para ler o que estava escrito no microporo e o medo que eu estava no começo até mesmo de encarar um policial se dissipou e consegui de cara limpa olhar para as pessoas de fora da marcha com sinceridade, na indagação de qual seria a nossa voz nessa história toda.

Me pediram pra mostrar o meu cartaz na câmera que fazia uma projeção num prédio ao lado da praça, nem vi a projeção, nem me preocupei em ver. Sentia que tinha feito a minha parte e quando sai de frente da câmera, arranquei o microporo e dei um grande grito longo e forte, de alívio. Conversei com as pessoas que tinham me acompanhado, tinham virado companheiras, mesmo com quase nenhuma palavra.

Me despedi e tomei o rumo da minha casa, silenciei. E ainda estou silenciada. tenho a impressão que ainda estou com a boca vedada, essa foi a sensação que ficou, não consigo explicar o porque e o que isso significa. Talvez essa sensação tenha que se manter presente pra que a luta ultrapasse as palavras e alcancem sempre a ação.

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